27 de novembro de 2013

História #1: O Bosque - parte 1



Era possível ouvir o som do vento nos galhos, o leve canto dos pássaros na imensidão das árvores. O rio cortando por entre a mata era o mais inquieto dos sons, construindo caminhos com seu véu de águas e dividindo em dois aquele incrível lugar.

Um beija-flor se aproxima da flor em seu cabelo, e em um toque singelo a faz despertar. Mais uma vez caiu no sono e não viu o tempo passar. O sol nascera, e percebeu que mais uma noite passou deitada em meio ao emaranhado de folhas.

O Bosque da Solidão, como era chamado, por ficar quase sempre abandonado. Poucos moravam naquela região, ali havia uma pequena cidade, e apenas ela se atrevia a ir lá. Era um lugar sombrio, e muitos acreditavam ser um lugar amaldiçoado. Muitas lendas haviam ao redor daquela floresta, mas ela pouco se importava, sentia-se completa quando estava lá, e passava horas do dia admirando a paisagem.

Seu nome era Ana, e muito se falava sobre ela pelo estranho hábito de visitar aquele lugar, que ninguém mais queria estar. Todos a conheciam como Ana do bosque, e ela não ligava, adorava aquele misterioso local e não dava ouvidos aos comentários ao seu redor. Longos eram seus cabelos, cor de ouro, que brilhavam ao bater do sol, a pele como seda, um olhar penetrante, com olhos pretos como ônix que encantavam e seduziam, faziam com que ela se tornasse ainda mais misteriosa.

Se levantando ainda sonolenta, olha ao redor e reconhece onde está, conhece o bosque como ninguém, está bem longe de casa, longa foi a caminhada na noite anterior. Aprecia um pouco mais as tonalidades do crepúsculo antes de voltar para casa.

Caminhava em direção à cidade, quando percebe algo estranho. O tempo para ao seu redor e nada mais é ouvido, apenas o completo silêncio. Folhas param em pleno ar antes de tocarem o chão. Sequer o rio é possível ouvir, mesmo estando bem perto.

- Será que ainda estou sonhando? - Pensou Ana.

Continua a caminhar lentamente, atenta a tudo ao seu redor. Um som ecoa, algo que ela não identificou. Mas tudo continua imóvel ao seu redor. Ela para e tenta ouvir o som novamente. Como em um flash tudo volta, e ao seu redor pode-se ouvir novamente os sons familiares do bosque. Ana cai atordoada e não compreende o que aconteceu.

- Definitivamente devo estar sonhando. - Reluta.

Ao se levantar percebe que nem tudo está como antes, ainda não se ouvia o som dos pássaros. Olhando para as árvores, Ana percebe que não estão em lugar algum, tenta encontrar algum pássaro, mas sem êxito.

- Teriam todos os pássaros fugido? Mas do quê estão com medo? - Questiona apreensiva.

Se apressa, no intuito de chegar mais rápido em casa, e ao se aproximar da ponte, na entrada do bosque, vê algo nas margens do rio. Não consegue identificar, apenas sabe que não é algo que já tenha visto. Não fica com medo, sente que não lhe fará mal.

Com tonalidades de azul jamais admirado por ela, se aproxima do rio e vê um pequeno ser, com lindas asas que brilhavam tanto que mal conseguia olhar fixamente. Olhando ao redor percebe dezenas de pássaros nas árvores próximas, e nota que não estavam fugindo, apenas queriam guiá-la até o ser, que parecia pedir ajuda.

- O que é você? Quem é você? - Pergunta.

Não ouve nenhuma resposta. Ana percebe que precisa ajudá-lo, mas não consegue saber como. Ela se aproxima com o intuito de tirá-lo da água. O toca, e sente como se sua energia fora sugada. Se sente fraca, não entende o que aconteceu.

- O que você fez? Quem é você? - Ana questiona sem obter resposta.

O ser se levanta, recebendo novo ar de vida. Ana então entende que fez exatamente o que ele precisava. Apenas foi preciso um toque para que ele se recuperasse. Ela pensa em perguntar novamente o que ele é, mas quando menos espera ele vai embora, deixando apenas um rastro de luz em seu caminho.

Ela não contou pra ninguém o que viveu esse dia, sabia que ninguém acreditaria. Quem era, e o que queria o pequeno ser? Talvez Ana do bosque nunca saiba. O que ela sabe é que o Bosque da Solidão talvez não seja assim tão solitário. E quem sabe quantas lendas não possuem um fundo de verdade?

Continua...
Parte 2

Verbum volat, scriptum manet
Corvo Branco

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